Eu sempre fui uma pessoa fechada e resguardada em minha própria casca. Não confiava em ninguém e, por consequência, acabava sempre lidando com meus problemas sozinha. Até o dia em que conheci meu grande amigo, Crash.

Nós nos conhecemos num momento difícil da minha vida. Eu estava passando por uma grande decepção amorosa e sentia-me incapaz de lidar com todo o peso e a dor que aquilo estava causando em mim. Foi então que Crash entrou em cena.

Ele não era exatamente como eu imaginava meu amigo ideal: era um cachorro vira-lata, pequeno e meio judiado pela vida na rua. Mas, por alguma razão estranha, ele olhou para mim com aquelas grandes orelhas marrons e, de alguma forma, falou comigo por meio dos olhos. Naquele momento, eu soube que tínhamos que ser amigos.

Os primeiros dias foram um pouco difíceis. Eu não estava acostumada a lidar com animais e, por causa da minha desconfiança natural das pessoas, tinha os mesmos prejulgamentos em relação ao pobre Crash. Mas ele, ao contrário de mim, era um ser totalmente aberto e amoroso. Ele me olhava com seus olhinhos doces e confiava em mim desde o primeiro instante.

Aos poucos, fui me abrindo e abrindo espaço em minha vida para Crash. Descobri que ele também tinha suas dores e traumas - talvez até mais que eu - mas que mesmo assim não se deixava abater. Ele levantava a cabeça, sacudia o pó e seguia em frente. E o mais impressionante: ele não fazia isso sozinho. Comigo, ele compartilhava suas dores e alegrias, suas corridas pelos parques e suas maratonas de séries de TV. E eu, por minha vez, começava a compartilhar minhas dores e minhas alegrias com ele.

Com o tempo, a amizade entre nós se fortaleceu. Nós nos tornamos inseparáveis, cúmplices de todas as aventuras e desafios. Aprendi a confiar mais em mim mesma, a me abrir para o mundo e a contar com as pessoas - e, especialmente neste caso, com meu animalzinho de estimação. Crash, por sua vez, também amadureceu e cresceu em confiança e coragem. Ele já não era mais aquele filhotinho de rua assustado que encontrei no começo, e sim um senhorzinho respeitado por todos na vizinhança.

A amizade que construímos juntos foi muito importante na minha jornada de autoconhecimento e superação de problemas. Ainda hoje, olhando para trás, sou grata por ter tido a oportunidade de conviver com um ser tão especial quanto Crash. Ele me ensinou muitas coisas, entre elas que a verdadeira amizade não tem contornos ou limites. E que, às vezes, a ajuda que precisamos vem de onde menos esperamos - até mesmo de um cãozinho de rua.

Eu e meu Crash continuamos juntos, ainda hoje. Ele está um pouco mais velhinho, um pouco mais cansado, mas sempre com aqueles olhinhos cheios de amor e cumplicidade. Às vezes, quando estamos sentados juntos no sofá, eu ainda me pego pensando como é que ele conseguiu conquistar meu coração assim tão rápido. Mas, pensando bem, acho que o mérito nem é tanto dele, e sim meu - por ter conhecido uma amizade tão verdadeira e transformadora como a que construí com meu pequeno grande amigo.